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[COLUNA] DESCANSA MILITANTE, por Camila Marins

  • revistaestilhacos
  • 9 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura


Camila Marins (@camilamarinsrj) é jornalista, mestranda em políticas públicas em direitos humanos pela UFRJ e uma das editoras da Revista Brejeiras, publicação feita por e para lésbicas.

Fotografia: @bleia


Descansa, militante! Quantas vezes ouvimos essa frase em tom de “meme” e piada? Desconsideramos a seriedade desta frase e, muitas vezes, vemos as nossas (e a nós mesmas) tombarmos e nos retirarmos da luta política em função de adoecimentos. Adoecemos. E sequer nos damos conta do processo, principalmente nós, mulheres negras. Pressão alta, dor de cabeça, insônia, ansiedade e até pânico. São alguns dos sintomas que o nosso corpo apresenta. E é comum muitos companheiros dizerem que aquela ali não aguentou ou “política é dura mesmo”. Não podemos aceitar esses discursos sob o risco de cairmos em uma lógica patriarcal sustentada pelo capitalismo.


Somos nós, mulheres, que cuidamos dos outros ao longo de nossas vidas, acumulando o trabalho invisível não remunerado e, portanto, explorado. Nesse trabalho de cuidado individual com cada pessoa e também coletivo, vamos nos perdendo de nós mesmas. Deixamos de nos cuidar. E esse cenário piora no caso de mulheres negras. O trabalho de cuidado com nós mesmas é a possibilidade real da materialidade das políticas públicas que lutamos para conquistar apresentarem benefícios positivos reais em nossa saúde física e mental. Precisamos de corpo e saúde para desfrutarmos das conquistas de nossas lutas coletivas. A escritora bell hooks, em seu livro “Salvação” afirma: “Muitos dos nossos ganhos materiais gerados pela luta militante antirracista têm tido pouco impacto positivo na psique e na alma de pessoas negras, pois a revolução interior, que é a fundação sobre a qual construímos o amor- -próprio e o amor pelos outros, não aconteceu”.


Precisamos de corpo e saúde para desfrutarmos das conquistas de nossas lutas coletivas.


Vivemos em um tempo que nos falta tempo; nosso bem mais precioso e que é consumido pelo capitalismo. O imediatismo, a urgência e a produtividade assumem protagonismo em nossas vidas. Dormimos e acordamos com os celulares. Como militantes, lidamos, todos os dias, com tragédias individuais e coletivas, acumulando dores e sofrimento. O trabalho de cuidado de nós mesmas precisa ser dirigido por nós e também por uma rede de solidariedade para que nós, mulheres, possamos reivindicar o espaço público e a política. Isso não significa transferir a responsabilidade de nossas vidas para outras pessoas, mas sim coletivizar o cuidado como política dos nossos espaços e de nossas vidas em comunidade. Pensar redes de alimentação segura e saudável, de lazer, de cultura que não sejam direcionadas para o trabalho. Por uma política, enfim, da alegria.


Eu digo a vocês, mulheres: descansem. A reintegração de posse dos nossos tempos (e são muitos) é urgente. Como diria bell hooks: “Dar amor a nós mesmos, amar a negritude, é restaurar o verdadeiro significado de liberdade, esperança e possibilidade na vida de todos nós”. E vamos recuperar a nossa capacidade de sonhar e desejar nesse mundo.

 
 
 

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